Havia sem dúvida escravos em Israel nos dias de Cristo. Podemos identificar também nos textos bíblicos, pois onde quer que as traduções recentes façam o uso da modesta palavra servo, parece certo que na verdade se referem a escravos.

Contundo não havia uma imensa população escrava como mundo romana. Como podemos observar num documento oficial do ano 71 d.C, que mostra que em uma região onde as autoridades fiscais contaram 385 contribuintes todos juntos não possuíam mais do que quarenta e quatro escravos, a saber, um escravo para cada nove deles.

O comportamento dos judeus também diferia em relação aos escravos. Seria lugar comum falar da crueldade dos romanos para com os deles, citanda a conhecida passagem em que Juvenal mostra uma matrona romana perguntando: “o escravo é homem?” ou lembrar o leitor que o escravo pertencia legalmente á classe de coisa, objeto era “uma espécie de instrumento que pode falar”. Esta imagem foi sido com frequência desmentida pelos nova historiografia, pois a literatura contém muitos exemplos de bondade dos senhores romanos para com seus escravos.

Todavia, embora possa ser verdade que o comportamento dos romanos fosse quase sempre melhor do que suas leis, entre os judeus estas eram muito superiores á legislação romana ou grega com relação aos escravos, e tais leis, por serem religiosas, dominavam o comportamento.

Nos dias de Cristo havia rabinos com ideias que os escravos eram seres preguiçosos, devassos e ladrões; suspeitavam neles todos os vícios, até o de odiarem a seus senhores. Ao que parece, isto fazia parte da conversa comum – falava-se então dos escravos como de hoje um Patrão falaria mal de seu empregado. Em contrapartida a lei protegia o escravo, castigando o senhor que o matasse, concedendo liberdade ao escravo cujo dono o mutilasse ou ferisse com golpes, e até mesmo ao escravo notoriamente maltratado. A maioria dos rabinos insistia sobre a aplicação mais generosa dos preceitos ao seu escravo; e a resposta do rabino Gamaliel e alguém que expressou surpresa por vê-lo triste com a morte de seu escravo Tobias foi repetidamente citada “Meu escravo Tobias era um homem, um homem honesto e piedoso”.

Mas a Lei fazia diferença entre o escravo pagão e hebreu. O primeiro, comprado no mercado da maneira usual, era menos protegido que o segundo. Não podia, entretanto, ser mutilado nem maltratado; tinha direito a um dia de descanso se escapasse não era devolvido ao dono. Por pertencer a um Israelita tinha de sujeitar-se a certas exigências bíblicas, mas não podia ser circuncidado contra a sua vontade, e se um escravo recusasse ceder a esta exigência por mais de doze meses, devia ser vendido novamente aos pagãos.

Por outro lado, se concordasse, a partir desse momento era considerado membro da família – a tal ponto, na verdade, que o escravo circuncidado pertencente a um sacerdote tinha o direito de comer da “comida santa”, as coisas sagradas.

O escravo de origem pagã não ficava sujeito ás mesmas obrigações religiosas do escravo hebreu, nem tinha os mesmos direitos civis, mesmo quando circuncidado. Devem ter sido muitos raros os escravos hebreus comprados na palestina; a lei proibia que o israelita fosse mantido como escravo contra a sua vontade a não ser no caso de criminosos, por endividamento, e também os pobres que para não morrer de fome preferiam tornar-se escravos. Nestes casos os senhores mandavam fazer um furo em sua orelha como marca de sua condição servil.

Contudo em princípio a lei retrata que o hebreu escravo deve ser tratado exatamente como um trabalhador livre, um empregado pago; não deveria trabalhar mais de dez horas por dia; o trabalho era diurno e não noturno; não trabalharia para o público, fazendo serviços tais como o de alfaiate, barbeiro ou atendente dos banhos; não sendo obrigado a fazer nada que pudesse humilhá-lo. Essas exigências foram tão escrupulosamente estabelecidas comparando-as ao mundo romano, que surgiu um ditado a respeito: “quem comprar um escravo judeu arranja um senhor a si mesmo”. Além da famosa lei do ano sabático, qual restaurava regularmente o equilíbrio da sociedade, cancelava as dívidas, dava descanso a tudo, até mesmo ao gado e à terra, e que estabelecia: “se comprares um escravo hebreu, seis anos servirá; mas no sétimo estará livre”.

O resultado imediato desta medita era que o escravo hebreu valia menor do que um vigésimo do preço do pagão, o qual, em teoria, devia ser apenar libertado nos anos de jubileu, isto é, a cada cinquenta anos. Parece - me bastante claro que nos dias de Cristo os costumes e as medidas legais tinham feito desaparecer quase por completo a escravidão na palestina, mesmo no caso de devedores insolventes. Apenas a venda de ladrões era ainda comum. Se um israelita fosse comprado por um senhor pagão ou por outro judeu que planejasse tirá-lo da terra santa, a comunidade o resgatava, caso a família não tivesse condições para isso.

Filo não estava então enganado quando afirmou: “mesmo os que recebiam o nome de escravos eram na verdade operários.”

A posição da mulher quer hebreia ou pagã, era muito diversa daquela do homem. Se fosse casada com um escravo partilhava a sorte dele (sendo libertada ou vendida a outro dono junto com o marido), a não ser que já pertencesse ao senhor antes de casar-se, em cujas circunstancias este poderia ficar com ela e os filhos. A doutrina rabínica também se opunha á escravidão de mulheres.

“O que aumenta o número de escravos em sua casa aumenta o roubo”, disse o rabino Hillel, “mas o que aumenta o número de escravas aumenta a devassidão.”.

Já cerimônia de libertação tinha caráter religioso: o escravo, na presença do senhor, amarrado aos filactérios, aquelas pequenas caixas de couro que continham quatro passagens da lei e eram usadas na testa e no braço esquerdo durante a oração. Depois dos ditos o liberto, se fosse hebreu pertencia à comunidade judia com todos os direitos dos demais judeus

Portanto escravidão na palestina existiu, mas com número bem reduzido, numa esfera totalmente diferente do que mundo romano, assim aparenta mais um operário do que escravo.  Por isso discutir e acusar a escravidão não era um tema comum nos discursos de Cristos e dos Apóstolos. Só será recorrente nas cartas paulinas, mas por dialogar com uma cultura e mundo greco-romano, qual escravo culturalmente e economicamente era usual e de suma importância.  

Texto: Lucas Vicente

DANIEL – ROPS,  Henri. A Vida Diária Nos Tempos de Jesus. 3ª ed. rev. São Paulo; Vida Nova, 2008. p.  164 - 167.